Lago Myvatn, Água e Fogo – Islândia, dia 5

Visitar o Lago Myvatn e toda a zona que o envolve era o único objetivo deste quinto dia a viajar na Islândia. O anterior tinha-nos trazido desde os Fiordes Ocidentais até Akureyri. Agora, queríamos visitar as águas do Lago Myvatn mas também conhecer mais algumas das épicas cascatas da Islândia.

Estávamos igualmente curiosos em relação às manifestações à superfície terrestre do calor que provém do seu interior e que, não aguentando mais a pressão, se escapa para aquecer momentaneamente a fria Islândia. Não foram suficientes as que encontrámos no Círculo Dourado, incluindo mesmo a turística (mas imperdível) Blue Lagoon. Quer-se sempre mais na Islândia.

Quando acordámos de manhã cedo, não sabíamos onde iríamos dormir. É assim que gostamos de fazer road trips. Sempre que possível, deixamo-nos surpreender pelas paisagens e pelos nossos palpites.

Não fazíamos a mais pequena ideia de que o itinerário deste 5º dia de viagem na Islândia teria cerca de 500km, desvios incluídos, até à minúscula aldeia onde iríamos dormir. Mas essa história fica para o fim deste artigo… Por enquanto, começamos o percurso.

Cascata Godafoss – a Islândia encontra a divindade

Deixámos para trás a “gigante” Akureyri (para os padrões da Islândia) e os seus quase 20.000 habitantes. Pela estrada N1, que circunda a ilha da Islândia, a meio caminho entre Akureyri e o Lago Myvatn, no quilómetro 35, encontrámo-nos com a Cascata Godafoss, ou Cascata dos Deuses.

Há quem diga que o nome se deve à sua beleza, pois poderia ser criada apenas por seres divinos. Mas também há uma lenda islandesa que conta como um líder Viking, Þorgeir Ljósvetningagoði, aqui lançou às águas revoltas as suas estátuas pagãs. Acreditem no que vos estiver mais perto do coração.

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Cascata Godafoss – em direção ao Lago Myvatn, Islândia

Nesta parte do dia, a chuva confundia-se com a névoa criada pela Godafoss, retirando-lhe parte do encanto.

Certamente, a Godafoss não é a mais magnífica cascata da Islândia mas, ainda assim, deixa em nós a sua marca, meio perdida no meio de um campo de lava criado pelo Vulcão Trölladyngja há 7000 anos. Sim, leu bem o nome do vulcão: …Troll… Um ser místico, como a paisagem que o encerra e alimenta, criadora do folclore da Islândia.

Pseudocrateras – a lava quente encontra o Lago Myvatn

Depois de optarmos por sair da N1 e seguir pela estrada 848, que contorna o Lago Myvatn (literalmente, “Lago dos Mosquitos”) a sul, vislumbrámos as suas calmas águas. O panorama continua a ser, no mínimo, invulgar. Skútustaðagígar é uma das mais conhecidas zonas (e, dizem, a mais impressionante) de pseudocrateras na Islândia. A minha pesquisa diz-me que o fenómeno só existe neste país, nos Açores (Ponta da Ferraria) e… na superfície de Marte.

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Pseudocrateras, Lago Myvatn

À primeira vista, são mesmo crateras o que temos à frente dos nossos olhos. Mas não. Estes cones foram formados por lava fervente que, ao passar pela água do Lago Myvatn, provocou uma explosão de vapor. O resultado foi a acumulação de materiais numa espécie de cone, obviamente, sem qualquer ligação a uma conduta de magma.

Caminhando por este espetáculo singular, reparamos nas diferentes texturas e cores nas superfícies, ora de lava em tons de terra, ora de verdes ervas.

Dimmuborgir – Islândia ou Marte?

Aqui e ali, fomos parando à beira da estrada na margem sul do Lago Myvatn e explorando as formações geológicas.

Não foram precisos nem 10 minutos para, ainda na N1, estarmos perante a curiosa área de Dimmuborgir. As “torres” e câmaras escondidas, semelhantes às de um castelo medieval, valeram-lhe o nome que, traduzido para português, significa Fortaleza Negra. Apropriado.

Há 2300 anos, uma erupção vulcânica libertou lava por estes campos. Ao fluir através do Lago Myvatn, fazendo as suas águas ferver, a lava arrefeceu rapidamente, formando pilares de vapor. Com o quebrar da lava e a sua solidificação surgiu Dimmuborgir, uma área com grandes amontoados de rocha e muitas grutas.

Na Islândia, Dimmuborgir faz parte do folclore. É sabido que os brutais trolls islandeses vivem em cavernas de lava… Pois foi nesta área que os mais ilustres viveram. Falo de Grýla (meia troll, meia ogre), que tinha um apetite insaciável por crianças, e do seu submisso marido Leppalúði.

O casal teve 13 filhos, hoje conhecidos como os “pais natais da Islândia“. Nas 13 noites antes do Natal, saem, um a um, para apavorar os islandeses. As diferentes estratégias para causar o terror deram-lhes inclusivamente os seus nomes. Um perturba o gado, outro rouba skyr, outro ainda espreita à janela em busca de algo para roubar,…

Dimmuborgir islandia
Torre de lava em Dimmuborgir

O propósito destas histórias assustadoras era, provavelmente, manter as crianças em casa nas frias e longas noites do inverno islandês, onde era fácil perderem-se.

Durante a Cristianização da Islândia, Dimmuborgir adquiriu outras lendas. Muitos começaram a acreditar que foi neste cenário rugoso que o Demónio aterrou depois de expulso do Céu. Foi aqui mesmo que ele criou as catacumbas para o Inferno.

Muito provavelmente, já viu Dimmuborgir na televisão pois foi filmado, em pleno inverno, nas cenas em que o exército do Povo Livre marchava para lá da Grande Muralha de Gelo na série Guerra dos Tronos. Apropriado.

Desde a estrutura de apoio de Dimmuborgir, onde nos aquecemos e descansámos um pouco, já se via a nossa próxima paragem, a Cratera vulcânica Hverfjall. Esta fotografia não mostra a verdadeira dimensão da subida. Mas é um aperitivo.

Cratera vulcânica Hverfjall desde Dimmuborgir

Cratera vulcânica Hverfjall – 360º de Islândia

À medida que nos aproximamos da negra e cónica cratera vulcânica Hverfjall de carro, e depois já a pé, a dimensão da subida pela encosta torna-se mais real. 400 desafiantes metros separam-nos do topo. Vencê-los mostra-nos toda a enorme cratera de 1000 metros de diâmetro formada por uma erupção vulcânica há 2500 anos. Muito provavelmente, esta é uma das melhores vistas do Lago Myvatn.

No cume da cratera, o buraco escuro do interior contrasta com os campos de dispersa lava amontoada, bem como com o azul líquido do Lago Myvatn e algum algo tímido verde de vegetação mais rasteira.

Lago Myvatn desde a Cratera vulcânica Hverfjall

Igreja de Reykjahlíd – um milagre no Lago Myvatn

A menos de 5 quilómetros de distância da cratera, ao encontrarmos novamente a N1, damos de cara com um fenómeno. Em 1729, a lava do vulcão Krafla que começou a ser expelida pela cratera Leirhnjúkur 2 anos antes, chegou finalmente à povoação de Reykjahlíd. Foram destruídas quintas e edifícios mas a lava parou a escassos metros da igreja. Milagre? Ou muita sorte?

É muito estranho ver o edifício, hoje já uma remodelação na fundação original, completamente isolado e rodeado de um campo de lava.

Área geotermal Hverarönd – o deserto Ártico

Próxima paragem: Área geotermal Hverarönd (também identificada como Hverir ou Namaskard). Quando estamos perto do Lago Myvatn não temos de conduzir muito para sermos, de novo, surpreendidos pela Islândia.

Nascentes de lama efervescente e borbulhante. Montes coloridos. Fumarolas. O cheiro a enxofre que nos invade em cautelosos passeios exploratórios, com “mergulhos” nas nuvens de fumo. Como se a Terra por aqui respirasse.

Resta dizer que toda a área de Namaskard é desprovida de vegetação ou de animais, claro. Um desolador mas extremamente fascinante deserto Ártico. Como se estivéssemos noutro planeta.

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Área geotermal Hverarönd

Pouco mais de meia dúzia de quilómetros para norte, abandonámos a N1 nas placas que indicam “Krafla” pela estrada 863. A Islândia é considerada o país mais amigo do ambiente devido à sua capacidade de gerar energia limpa a partir de forças geotérmicas. Grande parte desta responsabilidade vai para o sistema vulcânico Krafla. A primeira central geotérmica foi aqui construída em 1977 e a mais recente em 2006.

Esta área das redondezas do Lago Myvatn, bem como tudo o que está a Leste, é a que tem mais trilhos para caminhadas. Enquanto não der para ir até à Lua ou Marte, é aqui!

Cratera inundada Víti – há mais água perto do Lago Myvatn

À direita da estrada damos com a cratera inundada Víti. Desta vez não é preciso subir muito desde o parque de estacionamento. Traduzindo o seu nome, chegámos ao Inferno… É assim bem retratada a violência dos fenómenos vulcânicos do passado.

Com cerca de 300 metros de diâmetro, esta cratera resultou da já anteriormente referida maior erupção do Krafla, no século XVIII. O que distingue esta cratera das demais em redor do Lago Myvatn é a água azul do seu interior, dizem, dum tom extremamente vívido quando o sol consegue espreitar por cima da Islândia.

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A mais colorida Cratera Víti

Campos de lava do vulcão Krafla – com os pés bem quentinhos

Depois da cratera azul, o melhor mesmo é voltar um pouco atrás de carro e estacioná-lo novamente a menos de um quilómetro, no parque Leirhnjukur. Vamos a factos sobre esta área:

  • existem aqui dois vulcões, o Krafla (818m) e o Leirhnjukur (590m);
  • o chão é quente e dele se levanta, em alguns locais, uma nuvem de vapor;
  • o cenário é quase apocalíptico, como se vê nas fotografias, mas revelador do poder da natureza;
  • trilhos marcados para fazer caminhadas épicas, que ligam grande parte das atrações do Lago Myvatn.

Entre tantos locais fantásticos que visitei na Islândia, estes campos de lava foram um dos meus preferidos.

Se pudéssemos mudar algo na nossa viagem à Islândia, teríamos optado por reservar hotel no Lago Myvatn para explorar ainda melhor a região durante, pelo menos, 2 dias. Vamos ter de voltar para resolver este assunto!

Cascata Dettifoss – a energia imparável do glaciar

70 quilómetros nos distanciavam da próxima paragem obrigatória, a cascata Dettifoss. Primeiro pela óbvia N1, em direção a Leste, e depois para Norte, pela estrada 864. Diz-se que esta é a mais poderosa cascata da Europa. Eu fio-me daqueles que o afirmam.

cascata dettifoss
No percurso até à Dettifoss

Do maior glaciar da Europa, o Vatnajökull, avança o possante rio glaciar Jökulsá á Fjöllum até alimentar a trovejante Dettifoss. O estrondo das águas denuncia a magnitude da cascata tanto quanto a neblina que dela se levanta.

Quando o rio chega à catarata, o seu caudal tem 100 metros de largura. Aí, quase 200 metros cúbicos de água por segundo mergulham 45 metros! Mas isto são apenas números que não significam absolutamente nada até termos os nossos próprios sentidos… lá.

dettifoss
Cascata Dettifoss (não, a fotografia não foi tirado por um drone)

A partir daqui, deixaríamos para trás a Dettifoss e toda a região do Lago Myvatn para a etapa mais longa e demorada deste dia.

O Círculo de Diamante da Islândia

Nesta viagem à Islândia, a passagem pela Dettifoss foi o fim da nossa passagem pelo chamado Círculo de Diamante da Islândia (Diamond Circle). Com a visita que fizemos aos Fiordes Ocidentais, já não nos restou tempo para percorrê-lo por inteiro.

Deixo aqui os destaques deste circuito de 250 quilómetros no Nordeste da Islândia. Na lista abaixo descrevo brevemente todos os lugares de paragem, à exceção daqueles em que já me demorei no percurso pela margem sul do Lago Myvatn.

  • Godafoss
  • Lago Myvatn
  • Desfiladeiro Ásbyrgi – em forma de ferradura, coberto com uma floresta, das poucas que existem na Islândia
  • Húsavík – a povoação mais antiga da ilha e a capital islandesa da observação de baleias
  • Dettifoss
  • Penhasco Hringsbjarg – com uma vista sobre as montanhas do Fiorde Oxarfjordur e a praia de areia negra
  • Hljódaklettar – um conjunto de formações rochosas colunares
  • Hólmatungur – uma extensão de vegetação rica na área de Jokulsárgljúfur com formações rochosas colunares
  • Námaskard/Hverir
  • Grjótagjá – uma pequena caverna na zona do Lago Myvatn
  • Hverfjall
  • Dimmuborgir
  • Hofdi – um promontório rochoso de onde podemos avistar as enseadas e ilhas do Lago Myvatn
  • Pseudo crateras
  • Cratera Víti

Pela N1 afora sem sabermos o que nos esperava

Tendo em conta que já estávamos a meio da tarde, o plano para o resto do dia passou a ser aproximarmo-nos o mais possível do Parque Nacional Skaftafell, já no sul da Islândia. Depois de uns quantos telefonemas com a ajuda de um guia da Lonely Planet, encontrámos um lugar para passar a curta noite de verão. Chama-se Hotel Framtid e fica na pequena aldeia costeira de Djupivogur, com menos de 500 habitantes.

O problema é que ainda ficava a 360 quilómetros da Cascata Dettifoss. Conduzindo a uma média de 80 km/h, demoraríamos apenas pouco mais de 4 horas a chegar. Um passeio tranquilo nesta road trip na Islândia. Só que, a meio caminho, a asfaltada estrada principal da ilha, a N1, passou a ser uma esburacada estrada de terra batida (hoje em dia já completamente alcatroada). Ou seja, tendo de conduzir bastante mais devagar, levou-nos muito mais tempo a chegar ao hotel.

A demorada rota… ainda teve história. Aquela que a natureza islandesa nos proporciona. Para registarmos na retina mas também em fotografias.

Para jantar, houve um desvio para parar em Seydisfjordur e comer no pub de Skaftfell – o Centro de Artes Visuais da povoação.

Depois, fez-se noite… Muito, muito lentamente.

Só após o dia ter terminado é que chegámos finalmente ao hotel, em Djupivogur.

Ficou muito mais para contar desta jornada pelo Lago Myvatn do que escrevo aqui. Mas o melhor da viagem é que cada um faça a sua. A Islândia espera por si (e por nós, novamente, tão breve quanto possível).

Quanto ao dia seguinte deste Roteiro de Viagem à Islândia… teria quase tantos quilómetros mas um entorno bem diferente pelo sul da ilha.

(Muito em breve vai poder ler esse texto aqui também).

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Guia de Viagem Islândia

  1. Roteiro de viagem à Islândia – O que visitar
  2. Dormir na Islândia
  3. Alugar carro na Islândia
  4. Conduzir na Islândia, dicas para viajar de carro
  5. Dia 1 – Voo Lisboa – Barcelona – Reykjavík
  6. Dia 2 – Círculo Dourado
  7. Dia 3 – Fiordes Ocidentais
  8. Dia 4 – Desde os Fiordes Ocidentais até Akureyri
  9. Dia 5 – Lago Myvatn
  10. Blue Lagoon
  11. Viajar na Islândia – Caro ou Barato?
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