Roteiro de viagem Alentejo Escondido – Raízes da tradição pelos campos e castelos (3 dias)

Um roteiro de viagem alternativo no Alentejo, a partir de Évora, onde moro, foi o desafio que coloquei a mim próprio. Decidi-me por um percurso invulgar como este porque, embora adore revisitar cada lugar, me fascina ser viajante por cá e fazer novas descobertas. Sim, é possível.

O Alentejo é enorme, representando um terço do território de Portugal, mas ainda consegue surpreender um “filho da terra”, eu, que desenvolve diariamente o site Visit Évora, um Guia de Viagem de Évora e do Alentejo. Não me canso, por isso, de desbravar esta região.

A iniciativa da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses (ABVP), #euficoemportugal, foi a motivação para encontrar caminhos alternativos que não passassem pelos (encantadores) lugares mais visitados como Arraiolos, Estremoz, Vila Viçosa, Monsaraz, Elvas, Marvão, o Grande Lago Alqueva,… São tantos os que toda a gente já ouviu falar! Para além de Évora, Beja ou da Costa Alentejana, claro.

Mapa Roteiro de viagem Alentejo Escondido

Visitar o Alentejo por estradas menos conhecidas (e outras surpresas)

Vamos, então, a esta sugestão de caminhos alternativos para conhecer um Alentejo que não costuma vir nos “postais mais conhecidos”. O meu ponto de partida foi a minha casa, em Évora. Para quem precisa de alojamento, o que não falta é bons hotéis em Évora ou nos arredores. Escolha um de acordo com o seu gosto e estilo.

Dia 1 – Redondo e o montado (floresta de sobreiros e azinheiras)

Em apenas 40 minutos chegamos de carro à vila de Redondo pela estrada N254 mas não paramos (ainda). Em vez disso, viramos à esquerda na primeira rotunda e, depois na última, seguimos mais devagar outra vez à esquerda pela N381.

Se continuássemos sempre por esta estrada atravessaríamos a Serra d’Ossa até encontramos Estremoz. Nesta viagem, o destino é outro. Chama-se Herdade da Maroteira, um lugar onde as planícies do Alentejo acharam os montes e vales da serra. Desde a pré-história, estas terras foram escolhidas pelos nossos antepassados pelas condições fantásticas de vida que proporcionam. Afinal, o ambiente aqui é um pouco mais fresco. Também aqui a floresta autóctone de sobreiros e azinheiras oferece os seus nutritivos frutos, as bolotas, ricas em fibra e proteína. Não admira pois que, nesta mesma herdade, se encontrem antas, monumentos megalíticos tumulares coletivos.

A atividade que fiz no montado foi um passeio num clássico jipe Land Rover descapotável na companhia do guia José Inverno, um arqueólogo com fortes ligações à terra e um conhecimento profundo do mundo da cortiça. Curiosidade: o Zé foi meu aluno (sou professor de Inglês) há mais de 20 anos!

Visitar o Alentejo nunca será completo se não conhecermos a história e o processo de produção da cortiça. As árvores frondosas do montado são nobres testemunhos do passado. A azinheira não dá cortiça. No entanto, as suas bolotas são mais nutritivas e a madeira é excelente para alimentar as lareiras no inverno.

Do sobreiro extraímos a cortiça, depois de, pelo menos, 25 anos desde o nascimento da árvore. Mas este primeiro descortiçamento não tem ainda grande qualidade para, por exemplo, fazer rolhas de cortiça. Nem tão pouco o segundo, 9 anos depois. Só a partir do terceiro, passados mais 9 anos, é que a natureza nos dá essa qualidade que ajuda a preservar outra das suas dádivas, o vinho.

Para grande sorte, junho, precisamente quando fiz este roteiro no Alentejo, é mês de “apanha da cortiça”. Equipas de desembaraçados homens despiam os sobreiros com maestria, numa arte que é a mais bem paga das tarefas agrícolas, tal é a delicadeza, sabedoria e responsabilidade que envolve. Um corte mal feito pode resultar num corte na árvore e, quem sabe, até na sua morte.

Com o descortiçamento, pouco a pouco, as árvores ficam mais frescas sem a sua camada protetora que, não tarda nada, será empilhada cuidadosamente seguindo orientações bem antigas.

Entre histórias do passado e do presente da cortiça, vamos serpenteando o montado de jipe até ao ponto mais alto da herdade. Até onde os nossos olhos conseguem vislumbrar, sempre em cima de montes que asseguravam que os inimigos do passado não chegavam de surpresa, algumas aldeias e vilas do Alentejo quase nos acenam a chamar por nós. Havemos de ir a Evoramonte. Após a descida, é tempo de conhecer uma anta em estudo e obras de restauro pelo próprio Zé.

Conta-nos que está ali há milhares de anos para morada dos mortos mas que, até há bem pouco tempo, as antas da Serra d’Ossa foram usadas como abrigo para pastores e mesmo eremitas.

A próxima paragem é a zona das vinhas, delicadamente cuidadas para produzirem vinhos premiados de charme. Chamam-se as gamas distribuídas pelo mundo Mil Reis, Cem Reis, Dez Tostões e Senhor Doutor. Os conhecedores de vinho já as provaram e a procura é tanta que os locais estão sempre atentos às datas dos lançamentos. Não vão eles esgotar mais rapidamente do que o costume.

uvas alentejo

O caminho óbvio depois das vinhas leva-nos à sala de prova. Aqui, regamos pão, queijo e presunto do Alentejo com vários vinhos, uns mais frescos, outros mais encorpados. Excelente combinação depois do tour de jipe. Se tivéssemos optado pela caminhada no montado teríamos, certamente, ainda mais apetite. Seja como for, saímos mais ricos e aconchegados da Maroteira.

Marque o seu passeio diretamente no site da Maroteira ou use este meu outro site onde os passeios no montado alentejano têm destaque. Independentemente do site onde fizer a reserva, o preço das atividades é sempre o mesmo.

Terminada a visita e já no nosso carro, quando regressamos à estrada de alcatrão, basta-nos virar à esquerda, e conduzir cerca de 2 quilómetros, passando a Aldeia da Serra, para chegar ao Hotel Convento de São Paulo. O edifício monumental foi construído em 1182 por eremitas que escolheram esta zona do Alentejo para rezar rodeados da natureza sublime da Serra d’Ossa. Por aqui passaram figuras importantes da História de Portugal como D. Sebastião, D. João IV e D. Catarina de Bragança.

Para além do entorno, o que mais impressiona neste antigo convento é a arrebatadora coleção de azulejaria. São cerca de 54 mil azulejos produzidos nas melhores oficinas de Lisboa, a maior coleção privada de Portugal. Destaco ainda as antigas celas dos monges, os corredores e os fontanários.

Com o aproximar da hora de almoço, o melhor é fazer uma pausa. Podemos procurar de forma independente um restaurante na Aldeia da Serra ou em Redondo. Uma excelente alternativa é aceitar as sugestões de menu em restaurantes locais destacados pelos pacotes de experiências da Herdade da Maroteira.

Da parte da tarde, é tempo de explorar o Castelo de Redondo, Monumento Nacional desde 1946. As primeiras construções defensivas aqui erguidas são mais antigas mas esta cerca militar foi mandada construir por D. Dinis no século XIV.

Estacionando o carro na praça com o nome deste rei, somos recebidos pela típica cor azul dos rodapés e outros detalhes da maioria das branquíssimas casas. Apenas a Igreja Matriz de Redondo destoa, com um mais discreto amarelo. Na época certa, a cor dos frutos dependurados nas laranjeiras deixa um forte contraste. Entramos no castelo bem perto do pelourinho, pela Porta do Postigo, por baixo do relógio e de uma torre sineira.

gato alentejo

A Rua do Castelo atravessa a pequena fortificação passando pela Enoteca de Redondo, pela Igreja da Misericórdia, o antigo hospital, preguiçosos gatos. Mais além vê-se a protetora torre de menagem. A rua só pára na Porta da Ravessa, que deu nome a um famoso vinho da Adega Cooperativa de Redondo. Não saímos já do castelo por esta porta. Preferimos aceitar a proposta do Sr. Mértola, visitar a sua olaria, ouvir as suas histórias, comprar uma peça em barro e subir à muralha. Ponto obrigatório! Depois sim, saímos e contornamos as muralhas pela parte exterior.

A forma como passa o resto do dia fica ao seu critério. Porque cada viagem é diferente. Vá ao seu ritmo.

As minhas sugestões para dormir neste dia são as seguintes:

  • Escolha um hotel em Évora (sou fã incondicional do Vitória Stone Hotel)
  • Fique na Herdade da Maroteira, que não sucumbiu à tendência de transformar uma quinta num turismo rural luxuoso. As opções são todas autênticas, com mais ou menos proximidade direta à terra: 2 casas de desenho tradicional alentejano e uma isolada cabana de madeira. Perfeitas para famílias com crianças ou casais com amigos.
  • Sinta-se parte da história no Hotel Convento de São Paulo.

Dia 2 – Castelo de Valongo, Castelo de Terena, Fortaleza de Juromenha, Alandroal, Evoramonte

A primeira paragem deste segundo dia de visita ao Alentejo menos explorado é Nossa Senhora de Machede, onde chegamos, vindos de Évora, seguindo a N254 e virando à direita para a M526 (se partiu de Redondo tome a M534 e depois a CM1095 à direita). Nesta pequena aldeia realço o azul poderoso de edifícios como a sobranceira Igreja Paroquial de Santa Maria de Machede, a Casa do Povo e algumas outras moradias. A escola primária, recorda-nos a arquitetura que tantas outras tinham antigamente em Portugal.

Outra vez atrás do volante, pela CM1095 em direção a sudeste (voltando para trás se a partida da manhã foi desde Redondo), num pequeno troço de 500m em que a M534 interrompe a estrada camarária, um campo de girassóis imenso convida-nos a parar. Estas flores tão fotogénicas só vestem os campos no verão. Por isso, temos mesmo de as ir ver mais de perto, evidentemente, respeitando, sem estragar, o trabalho e dedicação do agricultor.

Castelo de Valongo

Logo ali a seguir paramos novamente, à direita, no início duma estrada de terra batida. O breve caminho pelo monte acima, com verdes vinhas como companhia, faz-se com a vontade de ver mais de perto o medieval Castelo de Valongo. Está abandonado, fechado e em ruínas. O que o distingue de tantos outros castelos do Alentejo é o facto de estar isolado no meio do nada e… o que o rodeia.

castelo valongo

Quando chegamos ao topo da pequena colina avistamos mais vinhas viçosas e a razão de ser da sua vibrante cor, especialmente se comparada com os tons pastel que o seco verão pintou na restante paisagem alentejana. Ainda que algumas flores perdurem. Uma solitária lagoa acrescenta mais verdes e azuis à paleta de cores deste lugar.

Meia dúzia de quilómetros mais à frente, pela mesma estrada, chegamos a Montoito, uma pequena vila do concelho de Redondo. Nesta povoação fundada no século XIII também domina o… azul. Do céu e dos detalhes que achamos. A Igreja do Espírito Santo é disso exemplo, tal como são os vizinhos coreto e junta de freguesia, na Praça 25 de Abril. As ruas vazias ditaram o mote deste dia de verão em que os quase 40ºC deixaram em casa os alentejanos. Só nós andávamos nas ruas.

Mais 30 calmos minutos de calma levaram-nos até à Barragem de Lucefécit (concelho de Alandroal) onde, desta vez, a sombra de um chaparro à beira da água teve um chamamento mais forte do que os restaurantes alentejanos. O lugar foi só nosso para comermos o que levávamos de casa, em jeito de farnel como se diz aqui no Alentejo. Nem uma grande cegonha nos quis fazer companhia.

barragem lucefecit

Castelo de Terena

Com aconchego no estômago, subimos as íngremes ruas, de carro, até darmos de caras com as muralhas do Castelo de Terena, com o qual já tínhamos namorado ao longe desde a barragem. A maior parte da construção desta estrutura fortificada deverá ter sido feita no reinado de D. Afonso IV (de 1325 a 1357). Era, nesta altura, crucial que houvesse uma forte fronteira no Alto Guadiana para proteção da coroa portuguesa perante possíveis avanços desde terras de Espanha. Por isso, para além desta estrutura em Terena, a linha de defesa incluía os castelos de Juromenha, Alandroal, Monsaraz e Mourão.

Do alto do castelo, pareceu-me impossível de conquistar, especialmente pela imponente entrada em cotovelo. Mas a verdade é que a decisão da Coroa de gastar todos os recursos financeiros e de engenharia na Praça de Elvas durante as Guerras da Restauração, no século XVII, viria a resultar na queda desta fortificação em 1652 perante tropas castelhanas. Como eu, certamente apreciaram a vista do horizonte ao redor… ainda que não lhes tivesse durado muito…

Deixando as muralhas para trás, a parte alta de Terena é merecedora de um passeio a pé. Se for até lá, dê os meus cumprimentos aos gatos que encontrar, sejam ou não de carne e osso.

Como eu, aproveite também para ler as palavras que o poeta popular local Joaquim Catita Guiomar deixou inscritas em azulejos.

Caminhámos até à simples mas bonita Igreja Matriz de São Pedro, em cujo largo as árvores abrigavam cigarras. Estavam animadas neste dia quente de verão, mesmo na hora de maior calor no Alentejo.

Talvez a um quilómetro do castelo, e fazendo o percurso já de carro, existe um local de oração singular. Chama-se Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova (ou Capela da Boa Nova) e é tão antigo que remonta ao tempo da cristianização dos cultos pagãos, já que bem perto existem ruínas do templo Endovélico. Num momento Proto-histórico, este era o Deus da cura, da medicina, da terra, do mundo subterrâneo, protetor da vida após a morte.

O edifício atual do Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova deverá ter sido construído no século XIII. É algo raro em Portugal pois tem características de igreja-fortaleza, edifícios que as guerras normalmente não poupavam. Quanto ao nome, conta a lenda, ter-lhe-á sido atribuído porque foi perto deste local que estava D. Maria, Rainha de Castela e filha do Rei de Portugal D. Afonso IV, quando soube da boa nova de que o pedido de auxílio que tinha feito a seu pai para ajudar o marido, D. Afonso XI de Castela, na luta contra os Mouros na Batalha do Salado teria sido atendido.

santuario juromenha

Estreitas estradas rurais sem nome traçam rota até à aldeia de Rosário, a pouquíssimos quilómetros, a partir da qual o caminho se faz para Norte. A seguir ao Monte do Outeiro viramos à direita e repetimos a manobra depois da Mina do Bugalho. Já na N373, são necessários apenas 11 quilómetros para chegar a Juromenha.

Fortaleza de Juromenha

Atravessando a povoação lentamente, seguimos para a fortaleza que é considerada a “sentinela do Guadiana”. O melhor lugar para a apreciar verdadeiramente pela primeira vez é no pequeno largo a seguir ao caminho que conduz à sua entrada, no qual se pode estacionar o carro. Aqui, os nossos olhos e a objetiva da máquina fotográfica dividem-se entre a bonita praça-forte e o rio Guadiana que esta defende.

As muralhas impõem respeito, cada vez mais, à medida que nos aproximamos da porta de acesso. Esta é a primeira linha de defesa, a exterior, abaluartada e com planta em forma de estrela. Imagino eu, para condizer com o céu noturno do Alentejo, pintalgado de cintilantes astros a anos-luz da Terra. Logo a seguir, a segunda cintura de muralhas tem em si a torre de menagem. Lá bem no alto, um hino ao #euficoemportugal, a bandeira de Portugal deixa-se orgulhosamente palpitar com o quente vento. A sua sombra faz o mesmo.

O interior da Fortaleza de Juromenha está hoje em ruínas, a acusar a idade. Não admira. Há referências a este lugar já no século IX! Por trás destas muralhas (ou das que as antecederam) se refugiaram Mouros e Cristãos, portugueses, espanhóis e finalmente portugueses. Viu as suas construções medievais adaptar-se à artilharia seiscentista. Sobreviveu com bastantes danos ao terramoto de 1755. Em pleno século XXI é possível ver os escombros de duas igrejas, os antigos Paços do Concelho e a cadeia. Está programada a obra de restauro. Queremos voltar!

Não foi este o dia em que voltei à impressionante cidade de Elvas que, juntamente com os seus fortes, mereceram a inclusão na lista de património mundial da UNESCO. Apesar de tão perto de Juromenha, também não voltei a atravessar a moderna Ponte da Ajuda avistando a antiga, para chegar a Espanha. Podia muito bem fazê-lo sem deixar de lado o #euficoemportugal já que a primeira povoação espanhola é… Olivença. Que é nossa… Pelo menos, assim o reconheceu o país vizinho no Congresso de Viena de 1815, ainda que sem qualquer resultado prático.

Com avanços e retrocessos entre a soberania portuguesa e espanhola ao longo dos séculos, o centro histórico de Olivença é uma deliciosa mescla de calçada portuguesa com as típicas palmeiras das praças espanholas e lojas com portas como encontramos nos países árabes. No centro histórico, as ruas têm nomes em espanhol mas conservam também a referência à toponímia em português. A mistura é evidente em alguns dos edifícios com um claríssimo estilo manuelino, como a Igreja de Santa Maria Madalena ou a Igreja de Santa Maria do Castelo. Esta última tem mesmo uma bonita porta neste estilo.

Alandroal

Pela mesma estrada que nos trouxe a Juromenha (a N373) chegamos à sede do concelho, Alandroal. A origem do nome tem arte: nestas terras crescem aloendros, ou alandros, cuja madeira se torna artesanato local (tal como a cortiça e xisto, também matérias primas da região). Primeira indicação de que nesta terra, como em tantas outras, o meio natural moldou a sua personalidade.

Já falámos das fortalezas de Juromenha e Terena, parte do concelho, tão importantes na contribuição do Alentejo para a defesa de Portugal perante os espanhóis, com a ajuda do rio Guadiana. É claro que o Alandroal também tem castelo! E é igualmente claro que as águas correntes (Ribeira de Lucefécit, rio Guadiana, ribeira de Alcalate e ribeira do Alandroal) e a vida que escondem sob a superfície inspiraram o conhecido festival anual apelidado de Mostra Gastronómica de Peixe do Rio de Alandroal.

Um castelo construído no século XIII já sofreu muitas investidas de exércitos inimigos e das intempéries. Mas o do Alandroal está agora excecionalmnete conservado e mantido pela câmara municipal. É isso que testemunhamos entrando pela Porta Legal desta fortificação gótica tendencialmente oval, na torre de menagem e restantes torres, no próprio chão e na Igreja de Nossa Senhora da Graça (ou Matriz de Alandroal).

A igreja foi construída originalmente no mesmo século que o castelo e obviamente modificada com o passar dos tempos. Os pequenos apontamentos de mármore com que nos deparamos, certamente trazido de regiões vizinhas no Alentejo em alguma altura da História, adicionam um toque de caráter.

A poucos passos de distância, a Praça da República impõe-se como centro da vila. Ou não tivesse em si os Paços do Concelho e a conhecida Fonte das Bicas. Um pouco mais além, já numa das saídas da pequena vila caiada de branco (afinal, estamos no Alentejo!), duas ermidas (São Sebastião e Santo António) estão perto do Largo de St. António. Neste, a Antiga Escola Primária de Alandroal, hoje creche, recorda-nos da altura em que meninos e meninas tinham o seu espaço próprio…

Evoramonte

A partir do Alandroal, escolher rumo por Estremoz ou Redondo vai dar ao mesmo. Quarenta quilómetros bastam para chegar a Evoramonte, onde temos de vencer a maior subida do dia antes de chegar ao castelo. Desta vez fui de carro.

Num resumo bastante curto, a longa, riquíssima e importante história de Evoramonte tem destaques bem definidos. No século XII foi tomada aos Mouros por Geraldo Sem Pavor, o mesmo destemido que reconquistou Évora. A fortificação da vila medieval aconteceu no início do século XIV, com muralhas que ainda hoje podemos tocar em alguns pontos, apesar das remodelações no decorrer dos tempos.

Em 1531, um terramoto deitou por terra o castelo original, o que resultou na edificação do paço fortificado de inspiração italiana, uma das jóias da arquitetura militar portuguesa. Já no século XIX, em 1834, a Convenção de Evoramonte marcaria o fim da Guerra Civil Portuguesa.

Com os factos anotados e presentes, investigamos no terreno. Podemos perfeitamente deixar a paisagem encantar-nos nos 360º que cobrem o percurso por cima da muralha. Ao fim e ao cabo, do cimo destas fortes paredes que parecem intransponíveis também observamos o que se passa nas 2 ruas que a acompanham no interior.

Mas é na rua central do castelo (na verdade, só há 3 no sentido longitudinal) que tudo descobrimos. Para começar, a placa com o seu nome, Rua da Convenção, e uma outra que assinala a casa onde foi assinada. Ali perto está o fotogénico paço adornado com laços, ou nós, que simbolizam o poder da Casa de Bragança em Portugal já que a sua máxima “depois de vós, nós” significava que acima dela apenas existia o Rei.

Na rua, damos com umas misteriosas casinhas maravilhosamente pintadas em algumas pedras da calçada. O jogo evidente é procurar mais e contá-las todas, especialmente se tivermos uma criança connosco. A autora destes mimos é a simpática Sensa, que encontramos na sua bonita loja no Celeiro Comum, onde a arte se alia a produtos regionais, todos querendo ir connosco para casa.

Entre peças de outros artesãos, o realce vai para as pedras que cobre com as cores que estas pedem, perfeitos exemplares de casas alentejanas. Para além destas, também molda bonecos de Estremoz,  Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO desde 2017.

Calcorrear a rua até ao fim deixa-nos ver a igreja e o cemitério, até sairmos pela porta que nos apresenta a povoação muito mais abaixo, a estrada que conduz até Évora e uma paisagem onde antigos moinhos desafiam a uma fotografia.

Desta vez não dormimos no castelo porque as incríveis varandas do único lugar para passar a noite que aí existe, o The Place at Evoramonte, são incompatíveis com a curiosidade desmedida das crianças… Mas já tivemos a felicidade de, em casal, ficar neste Alojamento Local que representa o culminar de uma busca da Vicki e do Mitch pela localização sublime no Alentejo. Sendo eles próprios viajantes e tendo vivido em vários países do mundo, escolheram (ou foram escolhidos por) Evoramonte para realizar o sonho de ter um B&B.

Todos os detalhes da decoração dos quartos e das áreas comuns nos fazem sentir bem-vindos e curiosos em relação à sua origem. Quando vier ao The Place at Evoramonte, tente ficar no quarto 4 (The Suite). Depois vai perceber porquê…

A comida que nos é oferecida com carinho para o jantar é exclusiva para hóspedes. O mote é o mundo que a Vicki e o Mitch conhecem, representado numa Pizza inteiramente preparada por eles usando ingredientes frescos, um Hambúrguer Irlandês com um molho sul-africano exclusivo, Pato Tailandês e Abóbora com azeite e especiarias,… Já provei todos. Desisti de escolher o meu preferido.

Já vos falei das varandas, certo? As dos quartos, bem como as do restaurante, estão viradas para um dos mais fascinantes pores do sol do Alentejo. Não está escondido, não é segredo. Mas nem todos os viajantes que andaram pelo Alentejo o conhecem.

Já percebeu qual é a minha única sugestão para dormir neste dia do Roteiro de viagem Alentejo Escondido, certo? Descubra e reserve o The Place at Evoramonte.

Dia 3 – Azaruja, Prova de Azeite com degustação de produtos alentejanos e almoço

Acordar em Evoramonte deve ser algo demorado. Para desfrutarmos de um tempo só nosso.

A proposta que tenho para este último dia do Roteiro de viagem Alentejo Escondido está intimamente ligada à atividade de passeio no montado logo no início desta minha sugestão de percurso. Ali mesmo quase aos pés do monte onde dormiu está a Azaruja.

Seguindo pela N18 na direção de Évora, 9 quilómetros são suficientes para chegar. Não vire (à esquerda) logo no primeiro cruzamento que encontrar (que tem o cemitério no lado oposto) mas sim no seguinte, para a estrada N254-1. Imediatamente depois, vire à direita na zona industrial que faz deste o principal centro corticeiro do Alentejo.

É simples dar de caras com a Cortiçarte, uma empresa envolvida em todo o processo que envolve a transformação da cortiça. Os produtos que vemos na sua loja facilmente nos dão a entender o porquê da escolha do nome da empresa.

Com um ou vários artigos de cortiça na mala, vá em direção à Azaruja, também chamada de S. Bento do Mato pela devoção popular a este santo protetor das pestes, mordeduras de víboras e lacraus (aqui abundantes em determinada altura).

Pode seguir em frente para explorar um pouco a vila ou virar logo à direita na placa que anuncia S. Miguel de Machede e Redondo. Imediatamente dará com outra placa indicando o Palácio dos Condes da Azarujinha, um edifício em estilo neoclássico dos finais do século XIX. Pertenceu a António Freitas, um político regenerador e importante empresário da indústria do vidro da Marinha Grande.

Depois de se interessar pelo negócio da cortiça no Alentejo e ter comprado várias herdades entre a Azaruja e S. Miguel de Machede, viria a aforar uma delas em 200 courelas para ajudar à fixação da população. Assim vemos como um homem apenas pode ser essencial para uma região. Lamentavelmente, o palácio e a igreja em frente estão em ruínas. Mas não é difícil imaginar os seus tempos áureos.

De regresso à estrada para S. Miguel de Machede, é preciso conduzir menos de 2 quilómetros antes de virar à direita no início dum velho muro. Pedindo ajuda ao GPS, é absolutamente descomplicado dar com o lugar. Chama-se Monte da Oliveira Velha. Já irá perceber porquê.

Viemos a este lugar porque gostamos de simplicidade e gente autêntica. Porque adoramos a ideia do Homem respeitar a natureza honrando-a a ela e, ao mesmo tempo, à sua própria família. Foi o que fez o nosso anfitrião, o João Rosado, quando decidiu pegar numa pequena quinta do seu falecido avô e, sem à partida nada saber de agricultura, dedicar-se à produção dum azeite muito especial.

A quantidade que extrai é mínima, uma gota no oceano da produção alentejana. A qualidade é sublime como atestam os prémios que ganhou. Distingue-se este azeite pelas sensações que nos provoca no olfato e, a cada momento, no paladar. Se é que faz sentido dizê-lo, os “segredos” do que o João faz não estão escondidos. Mas não vou ser eu a revelá-los, já que esta é daquelas experiências que não se deve contar mas sim viver.

Numa visita ao pequeno olival biológico, incluindo 2 oliveiras com mais de 2 mil anos(!), ficamos a saber toda a história deste ouro alentejano ao qual foi dado o nome Azeite Amor é Cego. A seguir vem a degustação, como deve ser, em copos de prova oficiais.

Visto que, entretanto, se fez hora de almoço, passamos uma bela parte da tarde à volta da mesa, como acontece no Alentejo. Trocam-se histórias enquanto provamos a comida que a família do João prepara normalmente na sua própria casa com ingredientes biológicos combinados com carinho. Os queijos e enchidos são da região, pois claro. Em relação aos apreciadores de vinho… basta dizer que à escolha destes foi dada a mesma dedicação que a tudo o resto que vê na mesa. Será mais um tópico de conversa.

Marque uma experiência como esta diretamente no site do Azeite Amor é Cego ou use este meu outro site onde as provas de azeite estão descritas ao pormenor. Independentemente de onde fizer a reserva, o preço será sempre o mesmo.

Chegou ao fim o Roteiro de viagem Alentejo Escondido – Raízes da tradição pelos campos e castelos. Se o seguir, total ou parcialmente, diga-me nas minhas redes sociais. Se tiver outros segredos que possa revelar em relação a esta região maravilhosa, eu também gostaria de saber.

Boas viagens em Portugal!

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